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Uma Linda História entre um Cristão e um Muçulmano

Sou um professor e por mais de 30 anos tenho me ocupado principalmente em tentar introduzir cristãos ao Islã e introduzir muçulmanos à fé cristã. Tenho feito isso principalmente nos países do sudeste asiático como Indonésia, Filipinas, e Malásia, porém nos últimos anos, com mais frequência, na Turquia. 

Muitas vezes, esses esforços se dão em situações educacionais formais de universidades e cursos do ensino médio, mas com mais frequência em situações informais ou alternativas em seminários, workshops, grupos de discussão e experiências vividas.

Uma vez, em Izmir (cidade da Turquia), um colega me convidou à sua casa, pois seu avô estava morrendo. Quando cheguei, o avô estava de cama, muito fraco, mas ainda consciente. 

A família estava no outro canto do quarto, tomando chá e conversando com o baixo.  Dois ou três membros da família – a avó, um dos filhos, uma sobrinha ou sobrinho – ficavam sempre do lado da cama repetindo com o avô a islâmica profissão de fé:  “Não há deus se não Allah (o Deus)”.  Depois de um tempo, outros membros da família trocavam de lugar com aqueles ao lado da cama, mas a oração continuava mesmo depois que o avô caía no sono.  Aprendi que a oração islâmica mais comum para uma morte feliz diz:  “Ó Deus, quando eu alcançar o momento da morte eu rezo para que ‘Não há deus senão Allah’ esteja em meus lábios”. Durante a noite, o avô morreu dormindo, com sua esposa e três crianças crescidas ao lado da cama repetindo, em seu nome, “Não há deus senão Allah.”  Eu aprendi mais naquela noite sobre a atitude islâmica a respeito da morte, do que tinha aprendido durante meus anos de doutorado sobre o pensamento islâmico.

Por muitos anos, tive a experiência, incomum para um padre católico, de viver e ensinar em cidades na Turquia em que eu era o único cristão, e todos os meus alunos, colegas educadores, vizinhos e amigos eram muçulmanos. Nesses lugares, nossos encontros têm sido não só em salas de aula, mas em mesquitas, casas – a minha própria ou de amigos – e até em locais “seculares” como o mercado local, os correios e uma livraria.

Quando colegas turcos, estudantes, e vizinhos vêm para passar a noite, nós não passamos a maior parte do tempo discutindo religião.  Nós falamos sobre política, economia, exportes, tapetes, programas de televisão e filmes, vida na Turquia, na América do Norte (onde nasci e cresci) e na Indonésia (onde passei a maior parte da minha vida adulta.).  Eles falam de suas preocupações com seus filhos e suas esperanças de que obtenham boa educação para encontrar um lugar no mundo e viver em um cerco social pacífico, mas também que seus filhos desenvolvam uma vida interior e vivam de acordo com os valores e ensinamentos da fé islâmica.  Esses são os tópicos que se apresentam, naturalmente, a partir da vida normal com a qual estamos lidando.

Quase sempre, chega o momento em que me vejo compartilhando o que significa para mim ser um cristão e quando eles elaboram o que é para eles seguir o Islã.  Nós dividimos nossos problemas comuns, como a necessidade de achar tempo para a oração e reflexão silenciosa no meio da correria da vida moderna.  Nós pensamos juntos sobre Deus, em como um Deus tão amoroso e bom permitiria maldades e desigualdade nesse mundo.  Nós compartilhamos nossas experiências de sofrimento e tentamos ver o que aprendemos de nosso contemporâneo doente, morto ou fracassado.

Nós nos perguntamos o que o perdão significa para nós e como as pessoas podem chegar à tarefa aparentemente impossível de realmente perdoar uns aos outros. Poderia alguém dizer que as horas que meus amigos muçulmanos e eu passamos discutindo economia e política foram “meramente diálogo”, enquanto aqueles minutos que tentamos pôr em palavras o lugar de Deus em nossas vidas foram “proclamação” ou para eles, “chegar à”, o equivalente em em língua árabe islâmico?  A realidade é que diálogo e proclamação nunca podem claramente ser destacados um do outro na vida real.  É tudo parte de uma mesma coisa, é uma vida vivida junta. Em uma vida compartilhada, estamos sempre influenciando um ao outro e aprendendo um do outro, tudo crescendo e sendo enriquecido pelos atos encontrados e atitudes que Deus produz, pelas nossas respetivas crenças, em cada um.

Fonte:

Thomas Michel, S.J.
DIÁLOGO ENTRE CRISTIANISMO E ISLAM:
CAMINHO PARA O ENCONTRO
DAS RELIGIÕES

Número 44 – Janeiro de 2004.
REVISTA MAGIS CADERNOS DE FÉ E CULTURA
ISSN nº 1676-7748